Autoestima ferida: como o abuso emocional distorce a forma como você se enxerga

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woman in black dress standing near white wooden door
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Autoestima ferida não é sensibilidade exagerada nem falta de força de vontade: é uma consequência direta e profunda do abuso emocional prolongado. Em minha leitura clínica, somada ao que a literatura em saúde mental descreve, fica claro que a violência psicológica vai reescrevendo, em silêncio, a forma como a pessoa se enxerga, até que ela mesma passa a duvidar do próprio valor, da própria percepção e até do direito de ser bem tratada.

Autoestima ferida: como o abuso emocional distorce a forma como você se enxerga

Quando alguém me procura depois de um relacionamento abusivo, é muito comum ouvir frases como “acho que o problema sou eu”, “talvez eu seja mesmo difícil de amar” ou “não confio mais em nada do que eu sinto ou penso”. Não é por acaso: abuso emocional não machuca só o presente, ele altera a narrativa interna sobre quem você é e o que acredita merecer nos vínculos.

Ao longo deste artigo, vou conectar o que observo nos atendimentos com o que pesquisas sobre abuso psicológico, autoestima e dependência emocional vêm mostrando, para te ajudar a entender por que a autoestima fica tão abalada e por onde começar a reconstruí‑la.

Como o abuso emocional atua “por baixo do radar”

Abuso emocional não é só grito e xingamento. Ele aparece em críticas constantes, ironias, silêncios punitivos, humilhações “brincando”, chantagem emocional, controle e inversão de culpa. Na prática, a pessoa passa a viver em estado de alerta, calculando palavras e gestos para “não provocar” a próxima explosão.

Na clínica, vejo isso se traduzir em sintomas como ansiedade, medo de errar, irritabilidade, insônia e sensação de estar sempre pisando em ovos. Estudos e relatórios sobre violência psicológica reforçam esse quadro, mostrando que ela impacta diretamente saúde mental e física, aumentando riscos de depressão, baixa autoestima e até ideação suicida.

Esse desgaste contínuo vai normalizando o desrespeito como se fosse parte inevitável do amor. Com o tempo, a pessoa passa a achar “exagero” esperar respeito, paciência ou escuta genuína em um relacionamento.

Da autoconfiança à dúvida constante

Um dos efeitos que mais aparecem no consultório, e que pesquisas também apontam, é a erosão da autoconfiança. A pessoa que antes se sentia minimamente capaz começa a duvidar de tudo: da inteligência, do jeito de ser, das escolhas, da própria sanidade.

Tanto na prática quanto nos artigos que uso como referência, vejo alguns pontos se repetirem:

  • A exposição a críticas, humilhações e comparação com outros faz a pessoa aprender que “tudo o que faço está errado”.

  • A manipulação e o gaslighting (“isso nunca aconteceu”, “você inventa coisas”, “você é louca”) corroem a confiança na própria memória e percepção.

  • A desvalorização diária (“você é fraca”, “ninguém te aguenta”, “ninguém te quer”, "ninguém além de mim vai te querer") se soma a um isolamento progressivo, dificultando ter outros olhares sobre si.

Um trabalho que discute abuso psicológico, autoestima e dependência emocional em mulheres mostra exatamente isso: quanto maior o abuso psicológico, menor tende a ser a autoestima e maior a chance de a própria vítima legitimar o abuso.​

Como o abuso distorce a autoimagem

No consultório, costumo dizer que o abuso emocional funciona como uma “edição” agressiva da sua autoimagem: aos poucos, o agressor corta partes luminosas e aumenta o zoom nos pontos frágeis, até você se enxergar quase só pelas lentes dele. Estudos sobre violência psicológica e autoestima em mulheres confirmam que relacionamentos abusivos têm impacto direto na forma como elas avaliam a si mesmas.

Algumas distorções aparecem de forma muito recorrente na minha prática e na literatura:

  • Culpa distorcida: a vítima assume sozinha a responsabilidade pela violência (“eu provoquei”, “eu não sei me comunicar”, "acho que eu exagerei"), mesmo em situações onde há claro abuso de poder.

  • Vergonha e desvalorização: cresce a sensação de ser “defeituosa”, “insuportável” ou “menos” do que os outros, o que alimenta isolamento e medo de pedir ajuda.

  • Normalização do desrespeito: xingamentos, controle, ridicularização em público e silêncios punitivos passam a ser vistos como “coisa de casal” ou “jeito dele/dela”.

Não raro, a pessoa passa a se ver como alguém que tem “sorte” de ter qualquer relação, e isso a faz aceitar migalhas, manter vínculos claramente destrutivos e se assustar diante de relacionamentos mais respeitosos (“tem algo errado, está fácil demais”).

O ciclo de manutenção: autoestima baixa e permanência no abuso

Quanto mais eu estudo e acompanho casos de violência psicológica, mais fica evidente que baixa autoestima não é só uma consequência; ela também se torna um fator de risco para permanecer na relação.

Artigos que discutem abuso psicológico, autoestima e dependência emocional mostram que a autoestima negativa pode mediar a permanência no vínculo abusivo: mulheres com autoestima mais baixa não apenas sofrem mais abuso, como tendem a aceitá‑lo como algo “compreensível” ou “merecido”. Trabalhos sobre violência conjugal e autoestima vão na mesma direção, associando experiências de violência à queda na autoestima e a problemas emocionais importantes.

Isso cria um ciclo que é muito frequente:

1. O abuso derruba a autoestima.

2. A autoestima baixa faz a pessoa acreditar que não consegue viver sem aquele relacionamento.

3. Esse medo de não conseguir sozinha a mantém na relação, onde continua sofrendo abuso, o que derruba ainda mais sua autoestima.

Sem intervenção, esse ciclo pode se repetir por anos, com um custo alto para saúde mental, física e para a qualidade de vida.

Caminhos de reconstrução da autoestima depois do abuso

A boa notícia, que vejo todos os dias no consultório e que a literatura também aponta, é que autoestima não é fixa: ela pode ser reconstruída, mesmo depois de anos de desvalorização. Esse processo não é rápido nem linear, mas é possível.

Alguns eixos costumam ser centrais:

1. Nomear o abuso e reposicionar a culpa

Reconhecer que aquilo foi abuso, e não “só um relacionamento difícil”, é um ponto de virada. Materiais psicoeducativos sobre violência psicológica e estudos com mulheres em situação de relacionamento abusivo reforçam que nomear a experiência ajuda a tirar a culpa da vítima e a enxergar o padrão de poder e controle envolvido.

Na terapia, trabalho esse reposicionamento: entender que ter limites, necessidades e emoções não justifica a violência sofrida.

2. Trabalhar crenças sobre si e sobre amor

Outra frente importante é identificar quais frases do agressor você incorporou como suas e quais crenças sobre amor foram reforçadas. Pesquisas sobre maus tratos e autoestima sugerem que as experiências de violência se associam a crenças de desvalor e incapacidade, que podem ser revisadas em processos de psicoterapia.

Na prática, isso significa olhar para pensamentos do tipo “ninguém vai me querer assim”, “sou um peso”, “se não aguento tudo, vou ficar sozinha” e colocá‑los em perspectiva, à luz da história de violência vivida.

3. Reconstruir a relação consigo mesma

Em muitos casos, o relacionamento mais afetado pelo abuso não é o com o agressor, mas consigo mesma. Reconstruir essa relação passa por:

  • Retomar pequenas escolhas diárias em seu favor (sono, alimentação, descanso, prazer, limites).

  • Reaproximar‑se de pessoas e espaços que te reconhecem para além da narrativa do agressor.

  • Investir em psicoterapia e, quando necessário, em redes de proteção e serviços especializados, principalmente se ainda há risco.

Iniciativas voltadas à autoestima no combate à violência reforçam que fortalecer esse olhar interno é peça central não só para sair da relação abusiva, mas também para não voltar a vínculos que repitam a mesma lógica.

Portanto, somar informação, acolhimento e trabalho terapêutico consistente ajuda a pessoa a sair da narrativa “não valho nada” para uma visão mais realista e compassiva de si. Isso não apaga o que aconteceu, mas devolve algo essencial: a sensação de ser alguém digno de respeito, capaz de se proteger e de construir relações que não exijam, como preço, a destruição da própria autoestima.