Por que atraio sempre o mesmo tipo de pessoa?

RELACIONAMENTOS TÓXICOS

Muita gente se pergunta “por que eu atraio sempre o mesmo tipo de pessoa?” justamente quando começa a enxergar que o problema não é só “ele” ou “ela”, mas um padrão que se repete. A psicologia chama parte disso de esquemas iniciais desadaptativos e repetição inconsciente: marcas emocionais antigas que seguem guiando, em silêncio, as escolhas afetivas de hoje.​

O que significa “atrair sempre o mesmo tipo de pessoa”

Quando você olha para trás e percebe que seus relacionamentos têm roteiros parecidos (parceiros indisponíveis, controladores, frios, agressivos, salvadores, extremamente carentes), você não está sozinha. Padrões repetitivos costumam ser um reflexo da busca, muitas vezes inconsciente, por algo familiar, mesmo que não seja saudável., que apontam para fatores como:

  • Comportamentos inconscientes na forma de se posicionar, ceder, escolher e tolerar determinadas atitudes.​

  • Crenças sobre si (“eu não mereço mais do que isso”, “ninguém vai me amar de verdade”) e sobre o amor (“relacionamento é sempre difícil”, “se não dói, não é amor”).​

  • Histórias familiares mal resolvidas que se repetem em novas relações, como se houvesse uma tentativa de “acertar a conta” do passado com pessoas de agora.​

Na prática, é como se uma parte sua reconhecesse no outro o “mesmo clima” emocional de casa: alguém frio, crítico, ausente ou imprevisível, mas que desperta um sentimento de familiaridade e atração.​

O que são esquemas iniciais desadaptativos

A Terapia Focada em Esquemas descreve esquemas iniciais desadaptativos como padrões emocionais e cognitivos amplos, formados na infância, a partir de necessidades emocionais importantes que não foram bem atendidas (amor, segurança, validação). São como lentes internas que passam a filtrar como você se vê, vê os outros e entende o mundo, e que tendem a se repetir ao longo da vida.​

Estudos sobre esquemas mostram que:

  • Eles nascem em vivências precoces percebidas como dolorosas, como rejeição, abandono, humilhação, hipercrítica, negligência ou invasão.​

  • Com o tempo, viram crenças estáveis do tipo “vou ser sempre abandonada”, “ninguém é confiável”, “sou insuficiente”, “preciso agradar para ser amada”.​

  • Mesmo desadaptativos, esses esquemas dão uma sensação de “conhecido”, por isso a pessoa tende a se aproximar de situações e pessoas que os confirmem.​

Os esquemas descrevem justamente isso: como o que você viveu pode moldar seus relacionamentos sem que perceba, levando a repetir roteiros que, no fundo, se encaixam nas velhas crenças.​

Como esses esquemas geram repetições inconscientes nos relacionamentos

Ao escolher parceiros, amizades e ambientes, a tendência é buscar algo que combine com esses modelos internos, mesmo quando, conscientemente, você jura que não quer mais saber desse tipo de pessoa. E por que isso acontece?

Tendemos buscar o familiar para tentar “resolver” o passado, ou seja, a mente, de forma inconsciente, tenta recriar dinâmicas familiares conhecidas na esperança de, desta vez, conseguir um desfecho diferente.​

  • Quem viveu abandono pode acabar se envolvendo com pessoas emocionalmente indisponíveis, na fantasia de que, se conseguir “segurar” esse parceiro, enfim vai curar a ferida da infância.​

  • Quem cresceu com figuras autoritárias tende a se atrair por parceiros controladores, reproduzindo o papel de quem precisa se adaptar, agradar e não desagradar.​

O inconsciente busca esse “conforto do conhecido”, ainda que o preço seja continuar sofrendo.​

Crenças que filtram escolhas e limites

Esses padrões atuam como filtros de atenção e decisão:

  • A pessoa com esquema de rejeição tende a focar em sinais mínimos de afastamento e a se sentir atraída por quem é ambivalente, porque isso combina com a crença “eu sempre serei deixada”.​

  • Esquemas de subjugação ou auto-sacrifício fazem com que se escolha quem exige demais, critica ou se apoia excessivamente, reforçando a sensação de ter que se anular para ser amada.​

Quando se fala no vínculo conjugal menciona-se inclusive “conjunção de esquemas precoces”: o entrelaçamento de crenças de cada parceiro, que alimenta padrões de resposta e conflitos previsíveis na relação.​

Sinais de que seus esquemas estão escolhendo por você

Embora cada história seja única, vejamos alguns sinais bem comuns de repetição de padrões ligados a esquemas:

  • Você se sente “em casa” justamente com perfis que te deixam ansiosa ou insegura, e se entedia com pessoas mais estáveis e disponíveis.​​

  • Percebe que repete relações com pessoas críticas, frias, infiéis, abusivas ou incapazes de se comprometer, mudando só o “CPF”.​

  • Sente que está sempre no papel da que cuida, salva, tolera e explica, e quase nunca no lugar de ser cuidada e acolhida.​

  • Fica com medo de perder alguém mesmo quando sabe que aquele vínculo te adoece, como se a solidão fosse pior do que qualquer coisa.​

É possível mudar esses padrões?

A boa notícia é que esquemas não são sentença; são mapas que podem ser revistos com autoconhecimento e, muitas vezes, com ajuda profissional. A Terapia Focada em Esquemas, por exemplo, foi desenvolvida justamente para identificar e transformar esses padrões persistentes e esse trabalho terapêutico ajuda a:

  • Reconhecer quais esquemas estão ativos (abandono, desconfiança, privação emocional, subjugação, auto-sacrifício, entre outros).​

  • Entender de onde vieram essas crenças e como elas se manifestam hoje em pensamentos (“vai dar errado”), emoções (medo intenso) e comportamentos (aceitar migalhas ou fugir de intimidade).​

  • Desenvolver modos mais saudáveis de se ver e se relacionar, fortalecendo o adulto interno que cuida da própria criança ferida, em vez de seguir tentando “curar” tudo num relacionamento.​

Enxergar o padrão já é parte da cura: a partir do momento em que deixa de ser totalmente inconsciente, vira escolha (ainda difícil, mas escolha!) continuar na mesma rota ou tentar caminhos diferentes.​

Se a pergunta “por que eu atraio sempre o mesmo tipo de pessoa?” tem aparecido para você, isso pode ser menos um sinal de azar e mais um convite para olhar para esses esquemas precoces e repetições inconscientes com mais cuidado. Com informação, autoconhecimento e, se possível, apoio terapêutico, é possível deixar de repetir a mesma história e começar a se aproximar de vínculos que combinem com a pessoa que você está se tornando agora, não só com as dores de quem você foi lá atrás.​