As feridas escolhem por nós
Uma perspectiva clínica sobre relacionamentos, trauma e liberdade de escolha
Ao longo dos anos de prática clínica, uma pergunta passou a me acompanhar:
Por que pessoas inteligentes, sensíveis e fortes permanecem em relações que as fazem sofrer?
Essa pergunta aparece de muitas formas.
Em quem vive relacionamentos abusivos.
Em quem sente culpa por não conseguir dizer "não".
Em quem escolhe repetidamente parceiros indisponíveis.
Em quem cuida de todos, mas se abandona.
Em quem acredita que nunca é suficiente.
Por muito tempo, procuramos respostas apenas nas decisões conscientes.
Mas a clínica nos mostra outra realidade.
Nem sempre escolhemos apenas com a razão.
Muitas vezes, escolhemos também com a nossa história.
As experiências que vivemos na infância deixam marcas profundas na maneira como percebemos a nós mesmos, aos outros e ao mundo.
Essas marcas influenciam nossas expectativas, nossos medos, nossos vínculos e a forma como reagimos diante da dor.
Na Teoria dos Esquemas, chamamos essas marcas de Esquemas Desadaptativos.
São padrões emocionais construídos muito cedo na vida e que continuam atuando, muitas vezes de forma silenciosa, na vida adulta.
Por isso, tantas pessoas repetem relacionamentos semelhantes sem compreender exatamente por quê.
Não porque desejem sofrer.
Não porque sejam fracas.
Mas porque aquilo que um dia representou uma forma de sobrevivência continua orientando suas escolhas.
Foi dessa compreensão que nasceu uma frase que resume a forma como hoje compreendo o sofrimento humano:
As feridas escolhem por nós.
Não como um destino inevitável.
Nem como uma sentença.
Mas como um convite à consciência.
Quando compreendemos as feridas que carregamos, elas deixam de conduzir nossas escolhas de forma automática.
É nesse espaço que nasce a liberdade.
A psicoterapia, para mim, não consiste em ensinar alguém a viver.
Consiste em ajudar cada pessoa a reconhecer sua própria história, compreender seus padrões emocionais e recuperar a possibilidade de escolher de maneira mais consciente.
Porque ninguém pode mudar aquilo que viveu.
Mas todos podem construir uma nova relação com a própria história.
É por isso que acredito que compreender vem antes de mudar.
Que acolher vem antes de julgar.
E que a transformação acontece quando deixamos de lutar apenas contra os sintomas e começamos a compreender as raízes que os sustentam.
Se este texto encontrou algo da sua história, talvez este seja um bom momento para continuar essa conversa.


As feridas podem participar das nossas escolhas...
Mas elas não precisam determinar o nosso futuro.
Se você deseja compreender sua história com profundidade e construir novas possibilidades, a psicoterapia pode ser esse espaço.
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