Toda relação enfrenta conflitos. Nem toda relação produz sofrimento.

RELAÇÕES QUE MACHUCAM

Introdução

Conflitos fazem parte de qualquer relacionamento.

Pessoas diferentes possuem histórias diferentes, formas distintas de comunicar suas necessidades, expectativas e maneiras próprias de lidar com as frustrações. Por isso, discordar, discutir ou atravessar períodos difíceis não significa, por si só, que exista algo profundamente errado na relação.

Na prática clínica, porém, muitas pessoas chegam com uma dúvida importante: "Será que estou vivendo apenas uma fase difícil ou existe algo mais acontecendo?"

Essa pergunta nem sempre é simples de responder, principalmente porque relações que produzem sofrimento raramente começam de forma evidente. Na maioria das vezes, elas se constroem aos poucos.

É justamente sobre essa diferença que vamos refletir ao longo deste artigo.

Quando toda relação enfrenta dificuldades

Nenhuma relação saudável é isenta de conflitos. Existem diferenças de opinião, momentos de irritação, períodos de maior distância emocional, mudanças provocadas pelo trabalho, pela chegada dos filhos, pelo adoecimento de alguém da família ou pelas inúmeras transformações que fazem parte da vida.

Tudo isso pode gerar desgaste, mas existe uma característica importante nas relações saudáveis: o conflito não impede o crescimento da relação e mesmo quando existem discussões, ainda há espaço para diálogo, reparação e reconhecimento mútuo.

Os dois conseguem, em maior ou menor grau, assumir responsabilidades, pedir desculpas quando necessário e buscar soluções para aquilo que os afasta.

O problema não é a existência do conflito e sim, a forma como ele passa a ocupar a relação.

Quando o sofrimento deixa de ser uma fase e passa a ser um padrão

Em algumas relações, o sofrimento deixa de ser consequência de uma situação específica e passa a fazer parte da rotina.

Pouco a pouco, uma das pessoas começa a viver em estado constante de alerta. Pensa cuidadosamente antes de falar. Evita determinados assuntos para não provocar discussões. Sente necessidade de explicar excessivamente suas escolhas. Passa a questionar a própria percepção dos acontecimentos. Em muitos casos, o problema já não é mais um episódio isolado. É o clima emocional da relação.

Mesmo nos dias em que aparentemente está tudo bem, permanece a sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento. Quando isso ocorre, o sofrimento deixa de ser um evento e passa a ser a forma como a relação é vivida.

O que muda dentro de quem vive essa relação

Uma relação que produz sofrimento não afeta apenas a convivência entre duas pessoas. Ela modifica, pouco a pouco, a forma como alguém passa a se relacionar consigo mesmo.

Muitas pessoas percebem que começaram a duvidar da própria memória. Outras deixam de expressar opiniões para evitar conflitos. Há quem se sinta constantemente culpado por situações que antes pareciam simples. Também é comum que a espontaneidade dê lugar à vigilância constante.

Em vez de perguntar: "O que eu penso?", a pessoa passa a perguntar: "Como o outro vai reagir?"

Com o tempo, a relação deixa de ocupar apenas um espaço na vida e passa a organizar toda a vida emocional.

A contribuição da Teoria dos Esquemas

A Teoria dos Esquemas, desenvolvida por Jeffrey Young, oferece uma compreensão importante sobre esse processo.

Experiências precoces podem dar origem a padrões emocionais que influenciam a forma como percebemos os relacionamentos ao longo da vida.

Esquemas como Subjugação, Autossacrifício, Busca de Aprovação e Abandono podem favorecer a permanência de uma pessoa em relações que produzem sofrimento, especialmente quando a pessoa acredita que suas necessidades devem sempre ocupar um lugar secundário.

Isso não significa que os esquemas "causam" essas relações. Mas ajudam a compreender por que determinadas dinâmicas se tornam tão difíceis de reconhecer e, principalmente, de modificar.

Quando os conflitos deixam de favorecer o crescimento

Essa talvez seja uma das diferenças mais importantes.

Em relações emocionalmente saudáveis, os conflitos fazem parte da convivência. Embora sejam desconfortáveis, eles costumam abrir espaço para diálogo, reparação e amadurecimento.

Isso não significa que as discussões sejam fáceis ou que os problemas desapareçam rapidamente. Significa apenas que existe disposição para compreender o outro, assumir responsabilidades e construir mudanças.

Quando uma relação passa a produzir sofrimento, porém, os conflitos deixam de promover crescimento e começam a reforçar sempre o mesmo ciclo.

As conversas terminam da mesma maneira.

Os pedidos de desculpas nem sempre são acompanhados por mudanças concretas.

As promessas se repetem, mas a dinâmica permanece praticamente a mesma.

Pouco a pouco, uma das pessoas passa a evitar determinados assuntos, silenciar necessidades ou modificar o próprio comportamento apenas para impedir novos conflitos.

A questão deixa de ser a existência de desentendimentos.

Passa a ser o efeito que eles produzem sobre a liberdade, a segurança emocional e a identidade de quem vive essa relação.

Quando buscar ajuda profissional

Nem sempre é fácil perceber sozinho quando os conflitos deixaram de ser apenas parte da convivência e passaram a produzir sofrimento de forma recorrente.

A psicoterapia não existe para decidir se alguém deve permanecer ou terminar uma relação.

Ela oferece um espaço para compreender aquilo que está sendo vivido, reconhecer padrões que se repetem e fortalecer recursos emocionais para que as escolhas possam ser feitas de maneira mais consciente.

Muitas vezes, antes de mudar uma relação, é preciso compreender a história emocional que sustenta a forma como nos relacionamos.

Conclusão

Talvez a pergunta mais importante não seja: "Minha relação é perfeita?" (porque nenhuma é), mas outra: "Ao viver essa relação, estou me tornando uma versão mais livre de mim mesmo ou cada vez mais distante de quem sou?"

Relações saudáveis não eliminam os conflitos. Elas permitem que ambos continuem crescendo apesar deles.

Quando o sofrimento se torna constante, compreender essa diferença deixa de ser apenas um exercício de reflexão e pode ser o primeiro passo para construir relações mais seguras, respeitosas e coerentes com aquilo que cada pessoa deseja para a própria vida.

Reflexão Clínica

Ao terminar esta leitura, talvez valha a pena se perguntar: Depois dos conflitos que vivemos, eu costumo me sentir compreendida(o) o e respeitada(o)... ou confusa(o), culpada(o) e cada vez mais distante de mim mesmo?

Às vezes, a resposta para essa pergunta diz mais sobre uma relação do que a quantidade de discussões que ela enfrenta.

Se, ao longo da leitura, você percebeu que nem todo conflito tem o mesmo significado, saiba que compreender a qualidade das relações que construímos também é uma forma de cuidar da nossa saúde emocional.

Na psicoterapia, esse processo acontece com tempo, acolhimento e respeito pela singularidade de cada pessoa.

Se desejar conhecer mais sobre meu trabalho, convido você a visitar a página de Psicoterapia ou explorar outras reflexões disponíveis aqui no site.

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