Como age um parceiro com traços narcisistas?

RELAÇÕES QUE MACHUCAM

Algumas relações começam com uma intensidade difícil de esquecer.

Há muita atenção, interesse, elogios, mensagens frequentes, planos para o futuro e uma sensação de conexão muito forte. Você pode sentir que finalmente encontrou alguém que o vê, compreende e valoriza de uma maneira especial.

Depois, quase sem perceber exatamente quando a mudança aconteceu, algo começa a se transformar.

A admiração pode dar lugar às críticas. A proximidade passa a alternar com frieza. Características suas que antes pareciam encantadoras começam a ser apontadas como problemas. E você pode se perceber tentando recuperar a relação que existia no início.

Em algumas relações com pessoas que apresentam traços narcisistas, pode surgir um padrão descrito como um movimento entre idealização, desvalorização e afastamento.

Compreender esse processo, porém, exige alguns cuidados.

Ter traços narcisistas não é o mesmo que ter um transtorno de personalidade

A palavra “narcisista” tornou-se muito frequente nas redes sociais e, muitas vezes, é utilizada para descrever qualquer pessoa egoísta, controladora, autocentrada, fria ou difícil de se relacionar.

Do ponto de vista clínico, precisamos fazer uma distinção importante.

Uma pessoa pode apresentar traços narcisistas sem necessariamente preencher os critérios para o diagnóstico de Transtorno da Personalidade Narcisista. O diagnóstico envolve uma avaliação clínica cuidadosa e não pode ser estabelecido simplesmente a partir de comportamentos isolados ou do relato sobre uma relação.

Além disso, comportamentos como controle, desqualificação, manipulação, necessidade excessiva de admiração ou pouca disponibilidade emocional podem aparecer em diferentes configurações psicológicas e relacionais.

Por isso, mais importante do que tentar diagnosticar o parceiro é observar o padrão que se estabelece na relação e os efeitos que essa dinâmica produz em você.

Você se sente constantemente confuso?

Começou a duvidar das próprias percepções?

Sente que precisa medir palavras e comportamentos para evitar conflitos?

Percebe que está sempre tentando recuperar uma versão da relação que parece ter desaparecido?

Essas perguntas podem ajudar a compreender melhor o que está acontecendo.

A idealização: quando a relação parece extraordinária

No início, algumas relações marcadas por traços narcisistas podem apresentar uma intensidade muito grande.

Há demonstrações frequentes de interesse, elogios, desejo de proximidade e, em alguns casos, planos para o futuro quando a relação ainda está começando.

É nesse contexto que aparece frequentemente o termo love bombing, utilizado para descrever demonstrações muito intensas de atenção e afeto no início de determinadas relações.

Mas é preciso cuidado: nem toda demonstração intensa de afeto é manipulação.

Pessoas apaixonadas podem naturalmente viver períodos de grande entusiasmo, proximidade e desejo de construir projetos juntas.

O que merece atenção é o padrão que se desenvolve ao longo do tempo, especialmente quando uma intensa valorização inicial passa a ser seguida de desqualificação, controle ou instabilidade emocional.

Durante a fase de idealização, pode surgir uma sensação poderosa: “Finalmente alguém me compreende como ninguém.”

Essa experiência inicial pode se tornar uma referência emocional importante quando a relação começa a mudar.

A desvalorização: quando você começa a não se reconhecer

Com o passar do tempo, aquilo que antes era admirado pode começar a ser criticado, os elogios diminuem.

Podem surgir comparações, ironias, comentários depreciativos, afastamentos, cobranças ou críticas aparentemente pequenas, mas repetidas.

Em algumas relações, também pode ocorrer gaslighting, termo utilizado para descrever um padrão de manipulação no qual a percepção, a memória ou a experiência da outra pessoa é repetidamente negada ou distorcida.

Frases como: “Você está exagerando”, “Eu nunca disse isso”, “Você entendeu tudo errado”, “Você é sensível demais”, isoladamente não definem gaslighting nem permitem concluir que alguém apresenta traços narcisistas.

Mas, quando fazem parte de um padrão persistente de invalidação, podem contribuir para que a pessoa comece a desconfiar das próprias percepções.

A pergunta deixa de ser apenas: “Por que ele está fazendo isso comigo?” e começa a se transformar em: “Será que o problema sou eu?”.

É nesse momento que a dinâmica pode se tornar especialmente dolorosa.

Quando carinho e afastamento começam a se alternar

Uma das razões pelas quais algumas relações são tão difíceis de deixar é que elas não são ruins o tempo inteiro. Existem momentos de carinho, pedidos de desculpas, reaproximações, períodos de tranquilidade, dias em que a pessoa parece novamente aquela do começo da relação.

E justamente essa alternância pode manter viva a expectativa de que tudo volte a ser como antes.

Depois de um período de tensão ou afastamento, uma demonstração de carinho pode produzir enorme alívio. A esperança reaparece: talvez agora seja diferente, talvez finalmente tenham se entendido, talvez aquela relação do começo ainda possa ser recuperada.

Por isso, permanecer não significa necessariamente não perceber o sofrimento ou simplesmente “não conseguir ir embora”.

Muitas vezes, existe um vínculo afetivo real, uma história compartilhada e a esperança de reencontrar aquilo que um dia foi vivido, ou aquilo que se acreditou que poderia ser vivido, naquela relação.

O afastamento: quando o vínculo parece perder repentinamente o valor

Em algumas relações, pode ocorrer um afastamento emocional significativo: pode ser abrupto ou gradual.

O parceiro pode reduzir o contato, demonstrar indiferença, retirar investimentos afetivos ou passar a direcionar sua atenção para outras pessoas ou projetos.

Na linguagem popular sobre relacionamentos narcisistas, essa etapa costuma ser chamada de “descarte”.

O termo pode ajudar algumas pessoas a nomear a experiência de terem se sentido subitamente desconsideradas. Ainda assim, é importante não transformar relações humanas complexas em uma sequência rígida de três etapas.

Nem toda pessoa com traços narcisistas seguirá necessariamente um ciclo de idealização, desvalorização e descarte. As relações podem apresentar movimentos diferentes, repetições, aproximações e afastamentos.

Para quem viveu uma intensa valorização seguida de desqualificação ou distanciamento, porém, pode surgir uma pergunta particularmente dolorosa: “Como alguém que dizia me amar tanto passou a me tratar como se eu não significasse nada?”

Por que é tão difícil sair, mesmo quando a relação machuca?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes, porque compreender uma relação apenas pelo comportamento do parceiro deixa de fora uma parte fundamental da história: aquilo que acontece emocionalmente com quem permanece.

Na Teoria dos Esquemas, compreendemos que experiências emocionais precoces podem contribuir para a formação de padrões profundos sobre quem somos, aquilo que podemos esperar dos outros e o que precisamos fazer para preservar nossos vínculos.

Alguns esquemas podem tornar determinadas dinâmicas relacionais especialmente difíceis de reconhecer ou interromper.

No abandono/instabilidade, por exemplo, o afastamento do outro pode ativar um medo intenso de perda.

Na privação emocional, pequenas demonstrações de cuidado podem adquirir um peso enorme quando existe uma história de necessidades afetivas pouco atendidas.

Na subjugação, a pessoa pode aprender a silenciar necessidades, sentimentos e opiniões para evitar conflitos ou preservar a relação.

No autossacrifício, pode assumir repetidamente a responsabilidade pelo bem-estar do outro, mesmo quando isso significa negligenciar as próprias necessidades.

Isso não significa que alguém “atraia narcisistas” ou escolha conscientemente relações que produzem sofrimento.

Significa que determinadas formas de relacionamento podem encontrar lugares emocionalmente conhecidos dentro de nós. E aquilo que é conhecido nem sempre é aquilo que nos faz bem.

Além dos esquemas emocionais, outros processos podem ajudar a compreender por que reconhecer o sofrimento nem sempre torna simples a decisão de sair. Aprofundo essa questão em: Por que é tão difícil sair de uma relação que faz mal?

“Mas ele também tem momentos bons”

Sim. E reconhecer isso é importante. Uma relação que machuca não precisa ser composta exclusivamente por momentos ruins para produzir sofrimento.

Toda relação atravessa conflitos e períodos difíceis. A questão está em compreender quando essas dificuldades fazem parte dos desafios de um vínculo e quando começam a constituir um padrão persistente de sofrimento. Sobre essa diferença, você pode ler: Toda Relação Enfrenta Conflitos. Quando deixam de ser saudáveis?

Podem existir carinho, companheirismo, lembranças importantes, projetos construídos juntos e momentos genuinamente bons.

Aliás, frequentemente é justamente essa complexidade que torna tão difícil compreender o que está acontecendo.

Não é necessário apagar tudo aquilo que foi bom para reconhecer aquilo que está fazendo mal.

Talvez uma pergunta mais útil seja: Como eu me sinto, de forma predominante, dentro desta relação?

Tenho liberdade para ser quem sou?

Posso discordar?

Minhas necessidades encontram espaço?

Consigo estabelecer limites sem temer retaliações, afastamentos ou longos períodos de conflito?

Ou tenho me percebido cada vez mais ocupada(o) em evitar críticas, administrar o humor do outro e preservar a relação?

Depois da relação, o ciclo pode continuar dentro de você

O término de uma relação não encerra necessariamente aquilo que foi vivido emocionalmente.

Podem permanecer dúvidas, culpa, saudade, raiva, vontade de procurar a pessoa novamente ou a fantasia de que, desta vez, tudo poderia ser diferente.

Também pode surgir uma necessidade intensa de compreender o comportamento do ex-parceiro:

“Ele realmente tinha traços narcisistas?”

“Ele sabia o que estava fazendo?”

“Será que algum dia vai mudar?”

“Por que comigo foi assim?”

Essas perguntas são compreensíveis e nomear o que aconteceu pode ser uma parte importante do processo de elaboração.

Mas, em algum momento, outra pergunta pode abrir um caminho diferente: “O que aconteceu comigo dentro dessa relação?”

Essa pergunta não significa responsabilizar quem sofreu pelo comportamento do outro e sim, devolver o olhar para aquilo que você pode trabalhar: suas necessidades, seus limites, sua história, seus padrões relacionais e a maneira como deseja construir seus vínculos daqui para frente.

Reconstruir-se é mais do que aprender a identificar pessoas com traços narcisistas

Depois de uma relação que produziu sofrimento, é compreensível querer aprender todos os sinais para nunca mais viver algo parecido.

Mas a reconstrução pode ir além, pois envolve recuperar a confiança nas próprias percepções, reconhecer necessidades, aprender a estabelecer limites, perceber aquilo que você vinha tolerando para preservar um vínculo, compreender por que determinados comportamentos pareciam familiares ou aceitáveis e construir formas de se relacionar nas quais não seja necessário abrir mão de partes importantes de si para continuar sendo amado.

A psicoterapia pode ajudar nesse processo não apenas a compreender o comportamento de quem machucou você, mas também a identificar os esquemas e padrões emocionais que foram ativados nessa relação e desenvolver novas possibilidades de vínculo.

Talvez, então, a pergunta inicial: “Como age um parceiro com traços narcisistas?” possa nos levar, aos poucos, a uma pergunta ainda mais importante: “O que acontece comigo quando estou em uma relação na qual preciso abrir mão de mim para conseguir permanecer?”

Reconhecer essa dinâmica pode ser um dos primeiros passos para construir relações nas quais vínculo, afeto e cuidado não exijam o abandono de si.

Um caminho de compreensão e reconstrução

Se, ao longo da leitura, você reconheceu aspectos da sua própria relação, talvez seja importante olhar não apenas para os comportamentos do outro, mas também para como essa relação tem afetado você, suas escolhas, seus limites e a maneira como percebe a si mesmo.

Na psicoterapia, esse processo pode ajudar a compreender os padrões que se estabeleceram na relação, reconhecer necessidades que foram silenciadas e construir formas mais seguras e saudáveis de se relacionar consigo e com os outros.

Esse é um trabalho que acontece com tempo, acolhimento e respeito pela história e pela singularidade de cada pessoa.

Se desejar conhecer mais sobre meu trabalho, convido você a visitar a página de Psicoterapia ou explorar outras reflexões disponíveis aqui no site.

Para saber mais, clique aqui
CONTATO
SIGA-ME NAS REDES SOCIAIS
11 99917-2121
ATENDIMENTO ONLINE
Português e Espanhol
(certificação DELE B2)
Segunda a sexta

9h as 20h