Gaslighting no relacionamento: quando você começa a duvidar de si mesma

RELAÇÕES QUE MACHUCAM

Talvez você se lembre claramente de uma conversa, mas a outra pessoa insiste que ela nunca aconteceu. Ou ainda, tenta falar sobre algo que a machucou e termine a conversa pedindo desculpas, sem entender muito bem como isso aconteceu.

Quando situações assim se repetem, você pode começar a pensar:

“Será que estou exagerando?”
“Será que entendi tudo errado?”
“Será que o problema sou eu?”

Essa dúvida constante sobre a própria percepção pode ser um dos efeitos do gaslighting.

O que é gaslighting?

Gaslighting é uma forma de manipulação psicológica na qual uma pessoa nega, distorce ou modifica os acontecimentos de maneira repetida, levando a outra a desconfiar da própria memória, dos sentimentos e da capacidade de compreender o que está vivendo (Alves, 2019; Machado et al., 2025).

O termo surgiu a partir da peça teatral Gas Light, de 1938, posteriormente adaptada para o cinema. Na história, um homem altera pequenos elementos da casa e nega que isso esteja acontecendo, tentando fazer a esposa acreditar que está perdendo a capacidade de perceber a realidade (Duignan, 2025).

Embora essa seja uma representação bastante intensa, o gaslighting cotidiano costuma começar de maneira mais sutil.

Como o gaslighting acontece no relacionamento?

Geralmente, ele não aparece de uma vez. Pode começar com pequenas negações, críticas ou mudanças na versão dos fatos.

Quando você tenta falar sobre alguma situação, pode ouvir frases como:

  • “Isso nunca aconteceu.”

  • “Você entendeu tudo errado.”

  • “Você está inventando coisas.”

  • “Você é sensível demais.”

  • “Foi apenas uma brincadeira.”

  • “Você sempre distorce tudo.”

  • “Ninguém mais pensa assim, só você.”

Aos poucos, essas respostas deixam de ser episódios isolados e passam a formar um padrão. Seus sentimentos são tratados como exagero, suas lembranças são constantemente questionadas e qualquer tentativa de conversar termina com você se sentindo culpada ou confusa.

Toda discordância é gaslighting?

Não. Duas pessoas podem lembrar uma situação de formas diferentes. Também podem interpretar uma conversa de maneiras distintas ou ter dificuldade para reconhecer os próprios erros.

No gaslighting, porém, existe um padrão persistente de negação e desqualificação. A outra pessoa não apenas apresenta uma visão diferente: ela enfraquece repetidamente a sua confiança em si mesma.

A diferença costuma estar na frequência, no padrão que se repete e nos efeitos produzidos ao longo do tempo. Quando a relação faz você sentir medo, culpa ou insegurança para expressar o que pensa, talvez seja importante observar também outros sinais de que o relacionamento está produzindo sofrimento.

Exemplos de gaslighting no dia a dia

Em um relacionamento afetivo, a pessoa diz algo ofensivo e, quando você demonstra que ficou magoada, responde: “Eu nunca disse isso. Você está imaginando coisas.”

Na família, alguém ultrapassa um limite e depois afirma: “Você sempre cria confusão. Ninguém consegue conversar com você.”

No trabalho, uma liderança muda uma orientação e, diante do resultado, diz: “Eu jamais pedi isso. Você precisa prestar mais atenção.”

Em uma amizade, você tenta conversar sobre uma atitude que a incomodou e escuta: “Só você vê problema nisso. Todo mundo acha você difícil.”

Em todos esses exemplos, o ponto principal não é apenas a mentira ou a discordância. É o uso repetido da desqualificação para fazer você desconfiar daquilo que percebeu e sentiu.

Sinais de que você pode estar vivendo gaslighting

Você pode:

  • repassar as conversas várias vezes para tentar descobrir onde errou;

  • pedir desculpas mesmo sem entender o que fez;

  • sentir necessidade de guardar mensagens ou provas;

  • ter medo de abordar determinados assuntos;

  • buscar confirmação de outras pessoas para saber se sua reação é razoável;

  • sentir que precisa explicar tudo detalhadamente;

  • duvidar da própria memória;

  • esconder situações de amigos ou familiares;

  • sentir culpa por estar triste, irritada ou incomodada;

  • perceber que já não confia tanto nas próprias decisões.

Um sinal importante é notar que você entra na conversa com alguma clareza, mas sai dela confusa, culpada e desconfiando de si mesma.

Por que é tão difícil perceber?

O gaslighting costuma acontecer dentro de relações importantes. Pode envolver alguém que você ama, admira, respeita ou de quem depende emocionalmente.

Além disso, a manipulação pode ser alternada com momentos de carinho, proximidade e aparente compreensão. Isso aumenta a confusão: a mesma pessoa que machuca também pode oferecer afeto e segurança.

Essa alternância ajuda a compreender por que pode ser tão difícil sair de uma relação que faz mal, mesmo quando parte de você já reconhece o sofrimento vivido.

O olhar da Teoria dos Esquemas

Algumas experiências da infância podem aumentar a vulnerabilidade a esse tipo de dinâmica.

Quem cresceu tendo seus sentimentos ignorados, sendo criticada por “reclamar demais” ou aprendendo que precisava se adaptar para preservar os vínculos pode desenvolver esquemas como:

  • subjugação: dificuldade de expressar necessidades e limites;

  • autossacrifício: tendência a cuidar do outro e deixar a si mesma em segundo plano;

  • defectividade e vergonha: sensação de que há algo errado consigo;

  • privação emocional: expectativa de que seus sentimentos não serão compreendidos;

  • busca de aprovação: necessidade de confirmação externa para se sentir segura.

Esses esquemas não tornam alguém responsável pelo abuso que sofre. Eles apenas ajudam a compreender por que determinadas falas encontram um terreno emocional já marcado pela dúvida, pela culpa ou pelo medo de perder o vínculo.

Consequências emocionais

Com o tempo, o gaslighting pode afetar profundamente a confiança que a pessoa tem em si mesma.

Ela pode sentir ansiedade, vergonha, culpa, tristeza, dificuldade para tomar decisões e medo de se posicionar. Também pode se afastar de pessoas próximas e passar a depender cada vez mais da versão apresentada por quem a manipula (Alves, 2019; Machado et al., 2025).

Não se perde apenas a confiança no outro. Aos poucos, pode-se perder a confiança na própria percepção e na forma como a pessoa se enxerga. Esse processo aparece também no artigo Abuso emocional e autoestima: por que você começa a duvidar de si.

Como se proteger?

O primeiro passo não precisa ser tomar uma decisão imediata sobre a relação. Pode ser começar a recuperar clareza sobre o que você vive.

Algumas atitudes podem ajudar:

  • Observe padrões, não apenas episódios isolados.

  • Anote acontecimentos e como você se sentiu.

  • Guarde mensagens importantes em local seguro.

  • Converse com alguém em quem confia.

  • Evite entrar em discussões intermináveis para provar o que viveu.

  • Lembre-se de que um sentimento não precisa da aprovação do outro para existir.

  • Procure ajuda profissional quando perceber que já não consegue confiar em si mesma.

Se houver controle, ameaças, perseguição ou medo de retaliação, é importante pensar também em segurança. Nesses casos, registros devem ser mantidos em um lugar ao qual a outra pessoa não tenha acesso.

Recuperar a confiança em si mesma

Sair dos efeitos do gaslighting não significa apenas reconhecer que houve manipulação, mas reconstruir, pouco a pouco, a confiança nas próprias lembranças, sentimentos, escolhas e limites.

A psicoterapia pode ajudar você a compreender a dinâmica vivida, reconhecer padrões relacionais e voltar a se escutar sem precisar verificar o tempo todo se tem o direito de sentir o que sente.

Você não precisa ter certeza de tudo para reconhecer que uma relação está fazendo você duvidar demais de si mesma.

E aquilo que você sente merece ser ouvido, inclusive por você.

Se desejar conhecer mais sobre esse processo, visite a página de Psicoterapia ou continue a leitura em outras reflexões sobre relações que machucam.

Para saber mais, clique aqui
CONTATO
SIGA-ME NAS REDES SOCIAIS
11 99917-2121
ATENDIMENTO ONLINE
Português e Espanhol
(certificação DELE B2)
Segunda a sexta

9h as 20h