Abuso emocional e autoestima: por que você começa a duvidar de si

RELAÇÕES QUE MACHUCAM

O abuso emocional não produz apenas sofrimento durante a relação. Quando se prolonga, pode modificar profundamente a maneira como a pessoa se enxerga, interpreta o que vive e compreende aquilo que merece receber em um vínculo.

Depois de ouvir repetidamente que é sensível demais, difícil de amar, incapaz ou responsável por todos os conflitos, pode começar a considerar que talvez essas afirmações sejam verdadeiras. Aos poucos, a voz de quem a desqualifica passa a ocupar o lugar de sua própria voz.

Quando alguém me procura após viver uma relação emocionalmente abusiva, é comum ouvir frases como:

“Talvez o problema seja eu.”

“Acho que sou mesmo difícil de amar.”

“Não confio mais no que sinto ou penso.”

Essas dúvidas não surgem por acaso. A violência psicológica pode enfraquecer a confiança na própria percepção, afetar a autoestima e alterar a narrativa interna que a pessoa constrói sobre quem é.

Isso não significa que ela seja fraca, excessivamente sensível ou incapaz de reagir. Significa que foi exposta, muitas vezes de maneira gradual e repetida, a uma dinâmica que colocou em dúvida seus sentimentos, suas escolhas e seu valor.

Neste artigo, vamos compreender como esse processo acontece, por que a pessoa pode passar a enxergar a si mesma pelas lentes de quem a desvaloriza e quais caminhos podem ajudá-la a reconstruir a confiança em si.

Como o abuso emocional acontece sem ser facilmente reconhecido

O abuso emocional nem sempre se apresenta por meio de gritos, ameaças ou xingamentos explícitos. Muitas vezes, ele acontece de maneira sutil e progressiva, por meio de críticas constantes, ironias, humilhações disfarçadas de brincadeira, silêncios punitivos, chantagens emocionais, controle e inversões de culpa.

Uma situação isolada não define, necessariamente, uma relação abusiva. É importante observar a repetição dos comportamentos, a assimetria de poder e os efeitos produzidos pela dinâmica. Quando determinadas atitudes são utilizadas continuamente para desqualificar, controlar, amedrontar ou confundir o outro, já não estamos falando apenas de dificuldades comuns de comunicação.

Nem todo conflito ou sofrimento indica, por si só, uma dinâmica abusiva. Por isso, antes de nomear uma relação, é importante compreender a diferença entre uma relação difícil e uma relação que produz sofrimento emocional contínuo.

Na relação emocionalmente abusiva, a pessoa pode passar a viver em estado de alerta, calculando palavras, expressões e gestos para não provocar uma crítica, um afastamento ou uma nova explosão. É como se precisasse monitorar constantemente o ambiente e a si mesma.

Com o tempo, podem aparecer ansiedade, medo de errar, irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração e a sensação de estar sempre “pisando em ovos”.

O desgaste contínuo também pode fazer o desrespeito parecer uma parte inevitável do amor. Aos poucos, desejar escuta, paciência, consideração e respeito passa a ser interpretado como exigência excessiva quando, na verdade, essas são necessidades legítimas em qualquer relação.

Muitas vezes, a pessoa percebe que algo não está bem, mas ainda encontra dificuldade para organizar o que sente ou reconhecer os padrões presentes no vínculo. No artigo Como saber se estou em uma relação que faz mal?, aprofundo alguns sinais que podem ajudar nessa compreensão.

Quando a voz do outro passa a ocupar o lugar da sua

Um dos efeitos mais dolorosos do abuso emocional é a erosão gradual da autoconfiança. A pessoa que antes se reconhecia como alguém capaz pode começar a duvidar de sua inteligência, de suas escolhas, de seu modo de se comunicar e até de sua capacidade de compreender o que acontece ao seu redor.

Esse processo não costuma acontecer de uma vez. Ele vai sendo construído por meio da repetição.

Quando alguém escuta continuamente que muito do que faz está errado, pode começar a revisar cada decisão antes mesmo de tomá-la. Quando suas emoções são ridicularizadas, passa a se perguntar se tem o direito de senti-las. Quando seus limites são tratados como exagero ou egoísmo, pode desistir de expressá-los.

Aos poucos, a pergunta deixa de ser “por que essa pessoa está me tratando assim?” e se transforma em “o que há de errado comigo?”.

Alguns comportamentos contribuem especialmente para essa perda de confiança:

  • Críticas, humilhações e comparações frequentes podem fazer a pessoa acreditar que nunca é suficientemente boa.

  • A negação de acontecimentos e a distorção de conversas podem levá-la a desconfiar da própria memória e percepção.

  • Frases como “você é louca”, “isso nunca aconteceu”, “você inventa coisas” ou “você está exagerando” podem produzir confusão e insegurança.

  • A desvalorização diária pode ser acompanhada de isolamento, dificultando o contato com pessoas que poderiam oferecer outros olhares sobre a situação.

  • A inversão de responsabilidade pode fazer a pessoa acreditar que é sempre a causadora dos conflitos e que precisa mudar para que a violência cesse.

Nesse contexto, aquilo que inicialmente parecia uma opinião do outro pode ser incorporado como uma verdade sobre si.

A pessoa já não precisa ouvir todos os dias que é incapaz para se sentir incapaz. Ela passa a repetir internamente aquilo que ouviu durante tanto tempo.

A confusão entre afeto e desvalorização

O abuso emocional não é necessariamente constituído apenas por momentos ruins. Em muitas relações, críticas, afastamentos e humilhações alternam-se com pedidos de desculpas, promessas de mudança, demonstrações de carinho e períodos de intensa proximidade.

Essa oscilação pode gerar muita confusão.

A pessoa se lembra dos momentos bons, recupera a esperança e acredita que, se conseguir agir de outra maneira, talvez a relação volte a ser como era no início. Quando o comportamento abusivo reaparece, ela pode atribuir a responsabilidade a si mesma: talvez tenha falado demais, cobrado demais, escolhido o momento errado ou não tenha sido suficientemente compreensiva.

A alternância entre aproximação e desvalorização também pode dificultar o reconhecimento do que está acontecendo. Se existem momentos de afeto, a pessoa pode concluir que a relação não é realmente abusiva ou que o sofrimento vivido é apenas uma fase.

Esse movimento aparece com frequência no ciclo de idealização, desvalorização e reaproximação, que aprofundo no artigo Como age um parceiro com traços narcisistas?

Isso não significa que toda pessoa que comete abuso emocional apresente traços narcisistas, nem que todas as relações com pessoas que possuem esses traços aconteçam da mesma forma. O mais importante é observar os comportamentos, a repetição da dinâmica e os efeitos que ela produz.

Como o abuso emocional distorce a autoimagem

Costumo pensar que o abuso emocional funciona como uma edição progressiva da autoimagem.

Os recursos, as conquistas e as qualidades da pessoa vão sendo diminuídos, enquanto suas fragilidades são ampliadas. Depois de algum tempo, ela pode passar a se enxergar quase exclusivamente pelas lentes de quem a desvaloriza.

Algumas distorções aparecem com frequência:

Culpa distorcida

A pessoa assume sozinha a responsabilidade pela violência:

“Eu provoquei.”

“Eu não sei me comunicar.”

“Talvez eu tenha exagerado.”

“Se eu fosse mais tranquila, isso não aconteceria.”

É importante reconhecer que dificuldades de comunicação, divergências ou comportamentos inadequados podem existir dos dois lados de uma relação. Entretanto, nenhuma dessas situações justifica humilhações, ameaças, controle, intimidação ou desqualificação contínua.

Responsabilizar-se pelo que lhe pertence é diferente de assumir a culpa pela violência praticada pelo outro.

Vergonha e desvalorização

A pessoa pode desenvolver a sensação de ser defeituosa, insuficiente, insuportável ou menos valiosa do que os outros.

A vergonha favorece o silêncio, pois em vez de contar o que acontece, ela pode tentar esconder a situação por medo de ser julgada, desacreditada ou responsabilizada. Também pode acreditar que os outros não compreenderão por que ela ainda permanece na relação.

Normalização do desrespeito

Xingamentos, controle, ironias, ridicularizações em público e silêncios punitivos podem começar a ser vistos como “coisa de casal”, “gênio difícil” ou apenas “o jeito dele” ou “o jeito dela”.

O problema deixa de ser o comportamento abusivo e passa a ser a reação de quem sofre:

“Você sabe como ele é.”

“É melhor não contrariar.”

“Não fale sobre isso agora.”

“Se você não respondesse, ele não ficaria assim.”

A repetição dessas mensagens pode levar a pessoa a diminuir suas necessidades e a aumentar sua tolerância ao sofrimento.

Perda do senso de merecimento

Não raro, a pessoa passa a acreditar que tem sorte por alguém ainda querer estar com ela. Pode aceitar migalhas de atenção, cuidado e respeito como se fossem demonstrações suficientes de amor.

Relacionamentos mais respeitosos podem até provocar estranhamento. A tranquilidade parece suspeita. A disponibilidade do outro gera desconfiança. A ausência de tensão pode ser interpretada como falta de intensidade.

Quando o sofrimento se tornou familiar, uma relação segura pode parecer estranha e não porque haja algo errado nela, mas porque exige o aprendizado de uma nova forma de se vincular.

O olhar da Teoria dos Esquemas

A Teoria dos Esquemas ajuda a compreender por que determinadas mensagens encontram um terreno emocional tão sensível e por que, mesmo reconhecendo racionalmente o abuso, pode ser tão difícil deixar de acreditar nelas.

Esquemas são padrões emocionais profundos, construídos ao longo da vida, que influenciam a maneira como interpretamos a nós mesmos, os outros e os relacionamentos. Experiências abusivas na vida adulta podem ativar ou intensificar esquemas que já estavam presentes.

No esquema de defectividade e vergonha, por exemplo, a pessoa pode sentir que existe algo essencialmente errado com ela e que, se for verdadeiramente conhecida, será rejeitada. As críticas e humilhações recebidas na relação parecem confirmar essa crença.

No esquema de subjugação, ela pode abrir mão de necessidades, opiniões e limites para evitar conflitos, punições ou abandono. Dizer o que pensa passa a parecer perigoso.

No esquema de dependência e incompetência, pode surgir a sensação de não ser capaz de cuidar da própria vida, tomar decisões ou enfrentar o mundo sem o outro. Essa crença pode ser reforçada quando o parceiro controla recursos, escolhas e contatos.

Já no esquema de privação emocional, a pessoa pode ter aprendido a esperar pouco dos relacionamentos. Assim, ausência de escuta, acolhimento e consideração pode parecer dolorosa, mas familiar.

Compreender esses esquemas não significa responsabilizar a pessoa pelo abuso que sofreu. Também não significa afirmar que ela escolheu conscientemente essa relação ou que desejava viver aquela experiência.

Significa reconhecer que determinadas feridas podem ser utilizadas e aprofundadas dentro de uma dinâmica abusiva. Na psicoterapia, identificá-las pode ajudar a separar aquilo que pertence à história da pessoa das mensagens que foram impostas e reforçadas pela relação.

Por que pode ser tão difícil sair

À medida que a autoestima se fragiliza, afastar-se da relação pode parecer muito mais difícil do que alguém de fora imagina.

A pessoa pode temer não conseguir viver sozinha, não ser amada novamente, não ter recursos emocionais ou materiais para reconstruir a vida. Também pode sentir culpa, vergonha, dependência emocional ou medo das reações do outro.

Além disso, a esperança de que os momentos bons retornem pode sustentar a permanência no vínculo. A pessoa não está ligada apenas à realidade atual da relação, mas também àquilo que viveu no início e ao futuro que acreditou que poderia construir.

Cria-se, então, um ciclo:

  1. O abuso enfraquece a autoestima e a confiança na própria percepção.

  2. A pessoa passa a acreditar que não é capaz de viver sem aquela relação.

  3. O medo, a culpa e a esperança de mudança dificultam o afastamento.

  4. A permanência a expõe a novas situações de desvalorização.

  5. A autoestima se fragiliza ainda mais.

Esse ciclo não deve ser interpretado como consentimento, passividade ou falta de vontade. A permanência em uma relação que machuca envolve fatores emocionais, relacionais, sociais e, muitas vezes, financeiros.

No artigo Por que é tão difícil sair de uma relação que faz mal?, aprofundo os elementos que podem manter uma pessoa ligada a um vínculo que lhe causa sofrimento.

Quando você começa a recuperar a própria voz

A autoestima não é uma característica fixa. Ela pode ser reconstruída, mesmo depois de um longo período de desvalorização.

Esse processo, entretanto, não acontece apenas por meio de frases positivas ou da tentativa de “pensar melhor” sobre si. A reconstrução envolve recuperar a confiança na própria experiência, reconhecer direitos, retomar escolhas e construir relações nas quais não seja necessário desaparecer para preservar o vínculo.

O caminho não costuma ser rápido nem linear. Alguns dias trazem clareza e força; outros reativam dúvidas, culpa e saudade. Essas oscilações não significam que a pessoa esteja voltando ao ponto de partida.

Alguns movimentos podem ser especialmente importantes.

1. Nomear o que aconteceu

Reconhecer que determinadas situações foram abusivas (e não apenas conflitos comuns de uma relação) pode ser um ponto de virada.

Nomear não significa reduzir toda a história a uma única palavra, nem ignorar os momentos bons. Significa reconhecer que afeto e sofrimento podem ter coexistido, mas que a existência de afeto não torna aceitável a violência.

Também significa retirar da pessoa a responsabilidade por ter sido humilhada, intimidada, controlada ou desqualificada.

Ter necessidades, cometer erros, discordar ou apresentar limites não justifica o abuso.

2. Separar a própria voz da voz de quem desvalorizou

Uma pergunta importante nesse processo é: Quais ideias que tenho sobre mim nasceram da minha experiência e quais foram repetidas tantas vezes por outra pessoa que passei a considerá-las minhas?

Frases como “ninguém vai me querer”, “sou um peso”, “não consigo fazer nada sozinha” ou “sou sensível demais” podem ter sido incorporadas ao longo da relação.

Questioná-las não significa substituir uma crença negativa por uma afirmação positiva vazia. Significa examinar sua origem, confrontá-las com outras experiências e construir uma percepção mais ampla, realista e compassiva de si.

3. Retomar pequenas escolhas

Durante uma relação controladora, até escolhas cotidianas podem ter sido criticadas ou retiradas.

Reconstruir a autonomia pode começar por movimentos aparentemente simples: decidir como organizar o próprio tempo, retomar uma atividade, escolher uma roupa sem antecipar críticas, reencontrar pessoas queridas ou reconhecer quando precisa descansar.

Pequenas escolhas não são pequenas quando a pessoa passou muito tempo sendo ensinada a não confiar em si.

Cada decisão sustentada contribui para reconstruir a sensação de competência e autoria sobre a própria vida.

4. Reaproximar-se de relações seguras

O isolamento favorece a narrativa abusiva. Quando a pessoa se afasta de amigos, familiares e espaços de pertencimento, perde referências importantes sobre quem é e sobre como merece ser tratada.

Reaproximar-se de pessoas que escutam sem humilhar, discordam sem punir e respeitam limites pode ajudá-la a experimentar outras formas de vínculo.

Uma relação segura não exige concordância constante, mas ela permite diferenças sem transformar o conflito em ameaça, silêncio punitivo ou desqualificação.

5. Buscar apoio e proteção

A psicoterapia pode oferecer um espaço para organizar a experiência, trabalhar a culpa, reconhecer padrões emocionais e reconstruir a confiança na própria percepção.

Quando ainda existe ameaça, perseguição, controle, violência ou risco, o apoio terapêutico deve caminhar junto a uma rede de proteção e, quando necessário, a serviços especializados.

Buscar ajuda não é exagerar o que aconteceu. É reconhecer que algumas experiências não precisam ser enfrentadas em isolamento.

Reflexão clínica

Se você percebe que passou a duvidar de si depois de uma relação, talvez seja importante perguntar:

  • Em que momentos comecei a acreditar que minhas emoções eram exageradas?

  • Quais características minhas passaram a ser vistas como defeitos depois dessa relação?

  • Tenho assumido responsabilidades que pertencem ao outro?

  • Quais necessidades e limites deixei de expressar para evitar conflitos?

  • Como eu me enxergava antes dessa relação?

  • Em quais pessoas e espaços consigo recuperar uma percepção mais inteira de mim?

  • O que eu diria a alguém que amo se essa pessoa estivesse vivendo o que vivi?

Essas perguntas não têm a função de produzir respostas imediatas. Elas podem ajudar a abrir espaço entre aquilo que foi dito sobre você e aquilo que, de fato, corresponde à sua história.

Reconstruir a autoestima é voltar a confiar em si

Reconstruir a autoestima depois do abuso não significa voltar a ser exatamente quem você era antes, pois algumas experiências nos transformam.

O processo consiste em deixar de se enxergar apenas pelas lentes de quem a desvalorizou e construir uma relação consigo na qual suas emoções, necessidades e percepções possam novamente ser escutadas.

Isso envolve informação, acolhimento, proteção e um trabalho terapêutico consistente. Envolve também compreender os padrões emocionais que podem ter tornado determinadas formas de relacionamento familiares, sem transformar essa compreensão em culpa ou considerar a própria história um destino.

Aos poucos, a narrativa “não valho nada” pode dar lugar a uma percepção mais realista e compassiva: “Eu vivi uma relação que me fez duvidar de mim, mas essa dúvida não define quem sou.”

O que aconteceu não precisa ser negado para que a vida continue. Também não precisa determinar todos os vínculos futuros.

Recuperar a autoestima é recuperar algo essencial: a confiança de que você é digna de respeito, capaz de fazer escolhas e merecedora de relações nas quais não precise destruir a si mesma para permanecer.

Se, ao longo da leitura, você reconheceu o quanto uma relação pode ter afetado a maneira como se enxerga, saiba que reconstruir a autoestima também envolve recuperar a confiança em seus sentimentos, percepções e escolhas.

Na psicoterapia, esse processo acontece com tempo, acolhimento e respeito pela história e pela singularidade de cada pessoa. Aos poucos, é possível diferenciar a própria voz das mensagens de desvalorização que foram incorporadas e construir uma relação mais segura e compassiva consigo mesma.

Se desejar conhecer mais sobre meu trabalho, convido você a visitar a página de Psicoterapia ou explorar outras reflexões disponíveis aqui no site.

Para saber mais, clique aqui
CONTATO
SIGA-ME NAS REDES SOCIAIS
11 99917-2121
ATENDIMENTO ONLINE
Português e Espanhol
(certificação DELE B2)
Segunda a sexta

9h as 20h